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'Memórias em Rede': alunos aprendem a identificar fake news e a melhorar a autoestima

Atualizado: 14 de fev. de 2023

A iniciativa do Instituto Devir Educom, em parceria com a Fapetec, revela que 80% dos participantes se sentem acolhidos e seguros para se expressar e 70% consideram estar mais críticos e com consciência midiática



Nos últimos dias do ano letivo de 2022, alunos da escola estadual Zulmira Campos avaliam desempenho próprio e do projeto.


Criteriosos e críticos em relação ao consumo de mídia, identificando a diferença de fake news e notícia; mais responsáveis e conscientes na produção de conteúdo nas redes sociais; com autoconfiança para expressar opiniões sobre temas diversos e autoestima elevada ao descobrirem suas potencialidades. É o que mostra avaliação feita pelo Instituto Devir Educom com alunos de três escolas onde o projeto Memórias em Rede é desenvolvido em parceria com a FAPETEC (Fundação de Apoio a Pesquisa, Ensino, Tecnologia e Cultura) - UMEs Vinte e Oito de Fevereiro (bairro Saboó) e Avelino da Paz Vieira (Vila Nova), e EE Zulmira Campos (Castelo), em Santos-SP, litoral paulista.


Do total de estudantes que responderam ao questionário avaliativo aplicado no final do último ano letivo, 80% afirmam com a pontuação mais alta que se sentem acolhidos, ouvidos e à vontade para expressar suas opiniões nas oficinas do projeto. O Memórias também ajudou 70% dos alunos a identificar conteúdos falsos, como parte do trabalho de combate à desinformação e às fake news realizado nas oficinas.


“Passei a checar mais as fontes. Me tornei mais crítico e passei a ter mais maturidade”, diz o aluno Rafael de Santana Dias, 17 anos, da EE Zulmira Campos. Isabelly Bispo, 14, da UME Vinte e Oito de Fevereiro, tem opinião semelhante: “Agora, toda vez que vejo alguma coisa na internet, procuro saber se é verdade”.


Para seu colega de colégio, Thiago Souza Santos, 14, o projeto “poderia ser colocado em todas as escolas da Baixada e São Paulo, para que todas as crianças saibam usar as redes sociais do jeito certo e não caiam nas armadilhas da internet e das fake news”.



Aluna Anna Letícia, da escola Avelino da Paz Vieira, apresenta um pouco do que desenvolveu no projeto em 2022, na Mostra Memórias em Rede.


Aluno William (esq) entrevista o colega Gabriel, da escola Vinte e Oito de Fevereiro, em reportagem sobre memórias da escola.



AUTOCONFIANÇA E AUTOESTIMA


Um espaço de debate sobre questões sociais. É como a aluna Júlia Gabrielle de Oliveira, 17, da EE Zulmira Campos, define o projeto. “Vemos muitos pontos de vista. Passei a aceitar mais a opinião do outro”. Sua colega no projeto, Isabeli Cristina de Assis da Silva Conceição, 17, diz que o ‘Memórias’ melhorou sua capacidade se expressão. “O projeto fez eu querer interagir mais e dar mais minha opinião”. O aluno Gustavo Christian Ferreira da Silva, 14, da UME Vinte e Oito de Fevereiro, afirma que começou “a ter mais coragem para me posicionar”.


A melhora da autoestima é apontada por Ana Caroline Irineu dos Santos, 14, da UME Vinte e Oito. “Hoje eu me sinto mais bonita. Antes eu achava que era feia, não gostava do meu cabelo, não gostava de gravar”, conta ela, se referindo às reportagens produzidas no projeto.



Vice-diretor Thiago, da escola Zulmira Campos, dá entrevista coletiva e fala das características da escola.


Mapa afetivo produzido pelos alunos da Zulmira Campos, com o desenho da escola que se tem com as discussões sobre a que se quer.



EDUCOMUNICADOR APRENDIZ


Também chama a atenção o desejo de alguns alunos em trabalhar no projeto, integrando a equipe de educomunicadores e multiplicando o conhecimento adquirido. “Tal demanda nos leva a pensar em alternativas de recursos para que esses estudantes possam se somar e ampliar a equipe do Instituto Devir Educom”, destaca uma das gestoras do projeto, a professora e jornalista Ivone Rocha, ressaltando que o interesse sugere que o projeto seja parte do projeto de vida desses alunos em sua trajetória estudantil.


Ainda segundo ela, “esse é um importante sinalizador para que o Instituto passe a oferecer formação em educomunicação também para esses jovens, como forma de ajudarem no ingresso ao mercado de trabalho”. Isso porque o projeto Memórias em Rede já contempla formação de gestores, professores e demais profissionais das escolas.



A prática jornalista sendo exercitada nas três escolas atendidas pelo projeto Memórias em Rede.



GANHAR O MUNDO


Trabalhar em equipe, saber ouvir de forma qualificada e respeitar opiniões contrárias também estão entre os aspectos positivos avaliados ao longo do trabalho. Conduzido pela Metodologia dos Círculos, criada pelo Devir Educom, a iniciativa atua nas perspectivas do Eu, da Escola, da Família e do Território, visando um aprendizado significativo e contextualizado com a realidade dos estudantes, de modo que desenvolvam e/ou fortaleçam a autoestima, o senso de pertencimento por onde estudam e vivem, e tenham maior participação social e exercitem a cidadania.


No último ano letivo foram trabalhados os eixos Eu e Escola, com foco na autovalorização, na escuta ativa e nas representações do Eu na mídia, além da reflexão e debate sobre a escola que se tem, a que se deseja e como contribuir para sua melhoria. Para a diretora Luciane Ladislau, da escola Vinte e Oito de Fevereiro, o projeto traz outra construção para a identidade discente. “Quando o projeto entra na escola e tira do aluno aquilo que ele nem sabia que ele tinha, a gente já ganhou o mundo. O projeto traz essa escuta, tira uma essência diferente do aluno e ele se encontra”.


Luciane ressaltou a importância do ‘Memórias’ nesta unidade de ensino, tendo em vista que a comunidade do Saboó é marcada pela falta de perspectiva de vida. “Há 64 famílias que vivem em condições precárias e de extrema pobreza, sem saneamento básico. Portanto, a escola é a porta de entrada para um mundo diferente. A saída para a escola pública são os projetos desenvolvidos nela”, destacou a diretora.


O projeto ainda colabora com o currículo escolar, pois contribui para melhorar o interesse do aluno nas disciplinas assim como ajuda o professor a contextualizar melhor seu conteúdo, independentemente da matéria ministrada.


Por iniciativa própria, a aluna Giovanna (esq.) entrevista espectatores da Mostra Memórias em Rede 2022 na escola Vinte e Oito de Fevereiro. A colega Ana Carolina (dir.), no papel de cinegrafista, pega o celular para registrar.


PROJETO FAZ A DIFERENÇA


Outra pesquisa realizada com os gestores das escolas participantes mostra que 87,5% consideram o projeto muito importante para a escola, para a formação humana dos estudantes e para melhorar a comunicação e expressão dos alunos. Vice-diretor da EE Zulmira Campos, André Menezes destacou a participação do aluno Adriel Pereira Alcides, 14, de personalidade bastante introspectiva. “O grande avanço foi ele começar e terminar o ano letivo no projeto, que favoreceu muito a ele no que se refere à questão de ele se colocar, se projetar no grupo, de trabalhar coletivamente. Me surpreendeu e o mérito é do projeto. A participação do Adriel dispensa qualquer comentário. Se para um aluno como ele fez essa diferença, imagina para os demais. Há significância no projeto, que faz a diferença para eles e para a escola”.


Para o estudante, “no projeto podemos nos expressar livremente e ouvir não só a nossa opinião como também as opiniões dos nossos colegas. Isso faz com que nossos conhecimentos sobre aquele assunto sejam melhores. O Memórias é como uma família para mim. Podemos falar sobre qualquer assunto e, se alguém estiver para baixo, ajudamos. Para mim, isso que o Memórias é: uma família”.


Em relação ao projeto contribuir para que a gestão repense a escola exigida pelos novos tempos e para a melhoria das relações da equipe gestora com os alunos participantes, 75% dos gestores responderam positivamente. Outros pontos destacados na avaliação foram a contribuição na melhoria da desenvoltura dos aspectos comunicacionais e relacionais dos integrantes do projeto; os temas abordados, como desinformação, fake news e deep face; o desenvolvimento das relações interpessoais entre os alunos e o protagonismo deles para outros projetos além das salas e muros da escola. Os gestores ainda sugeriram que o projeto possa atingir um número maior de discentes e que possa abranger todas as classes da EJA.


Na Zulmira Campos, aos poucos, torna-se comum perder a timidez e apresentar temas para discussão, como machismo, racismo, homofobia, LGBTfobia etc.


URGÊNCIA DA EDUCOMUNICAÇÃO


A devolutiva dos estudantes e gestores aumenta a responsabilidade do Instituto na sua contribuição à educação atual, bem como sinaliza a urgência da Educomunicação e da Educação Midiática no âmbito da política pública, ressalta a presidente do Devir Educom, Andressa Luzirão, também gestora do projeto. “A avaliação deles legitima aquilo que acreditamos, que é melhorar a Comunicação em sua dimensão ampla, o que engloba relações interpessoais mais horizontais, gentis e respeitosas, além de consciência cidadã no consumo e uso das mídias. Que os alunos se tornem cidadãos críticos, responsáveis e solidários e busquem novas perspectivas de vida”.


Sob a perspectiva da Educomunicação, a iniciativa do Instituto Devir Educom leva o jornalismo, a educação midiática e a tecnologia social da memória para os ensinos Fundamental e Médio e para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), por meio de parceria com a FAPETEC, instituição com 19 anos de atuação em Santos e outras cidades brasileiras. O objetivo é promover o protagonismo dos estudantes na construção coletiva do conhecimento e contribuir com a educação exigida neste século 21.


DIMENSÃO DO ‘MEMÓRIAS’

As oficinas com os estudantes envolvem debates, seminários, entrevistas, atividades externas e outras de escrita criativa, fotografia, rádio, vídeo e mídias sociais. O projeto Memórias em Rede ainda compreende diagnóstico de cada unidade de ensino e a formação ‘Círculo Memórias em Rede de Oficinas’ voltada aos profissionais das instituições participantes.


Em outra ação da prática jornalística, participantes do projeto Memórias em Rede fazem a cobertura de evento da Unesco em Santos.


“O objetivo é que as ações do projeto impactem cada escola como um todo, valorizando o conhecimento e a história das pessoas da comunidade escolar, fortalecendo a autoestima, o sentido de pertencimento, o desempenho escolar e o reconhecimento da importância da escola para a formação de valores e novas perspectivas de vida”, complementa a gestora Ivone. O intuito é ainda valorizar os profissionais que atuam nessas instituições como importantes agentes da educação atual.


“Por meio do projeto, queremos verificar todos os desafios que precisam ser superados e explorar todas as potências existentes em cada escola no que se refere aos aspectos humano, estrutural e espacial. A escola é local de encontro e acontecimento, e ali habitam atores sociais que contracenam e dialogam com seus pares e com os lugares desse espaço. Isso forma a identidade de cada comunidade escolar”, afirma outro gestor do Memórias em Rede, o antropólogo e sociólogo do Devir Educom, professor Carlos Alexandre Guimarães.


A parceria entre Devir Educom e Fapetec ocorre em interlocução com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), a Secretaria Municipal de Educação (Seduc) e a Diretoria de Ensino - Região Santos.



JORNALISMO NA ESCOLA


'Matéria na rua". É assim que se fala quando os alunos fazem reportagens fora dos espaços das escolas.


O projeto leva o jornalismo à escola em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), atuando com estudantes na função de repórteres, que tecem e ressignificam suas histórias afetivas e a de cidadãos comuns na relação direta e indireta com a cidade e seus mais distintos lugares, a começar pela escola.


Para isso, o projeto utiliza-se de recursos da Comunicação e da tecnologia como canais de expressão e exercício de cidadania em diferentes linguagens, desenvolvendo consciência crítica e responsabilidade social nos alunos quanto ao uso e ao consumo responsável das distintas plataformas de mídia, entendendo-as como partes da cultura contemporânea. As oficinas trabalham, de forma lúdica, a técnica jornalística, com as funções relacionadas, como repórter, editor, pauteiro, fotógrafo, produtor e apresentador.



DEVIR EDUCOM


Criado em junho de 2018, sob o pilar da Educomunicação, o Instituto atua em várias frentes e ações na educação formal e não formal, envolvendo crianças, jovens e adultos. Objetiva contribuir com a construção de ecossistemas comunicativos mais horizontais, dialógicos e criativos no ambiente escolar e com processos de aprendizagem mais significativos nos distintos formatos de sala de aula, tão requeridos pela educação atual.


Entre suas ações, além do Memórias em Rede, o Instituto tem em seu escopo projetos como Papo de #Educomunicação (lives mensais com educadores e especialistas sobre temas que afetam a escola e espaços não-formais de ensino), (RE)Aproveitar (que atua na sustentabilidade dentro das escolas), Cinescola (levando o cinema para a reflexão de alunos e demais membros da comunidade escolar), formações, entre outros.


Para conhecer mais sobre o projeto e o Devir Educom, acesse nossas redes sociais; Instagram, Facebook, Youbube e LinkedIn.


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